De tempos em tempos algum aluno passa a ir ao ateliê com frequência no horário do recreio. Ultimamente tem sido um garoto do 5º ano. Ficamos conversando sobre sua turma, a cidade onde vive e as aulas de artes. Tenho percebido nele algumas diferenças, as vezes me lembra meus alunos autistas. Sua ansiedade o faz ter movimentos desordenados e as vezes involuntários. E as vezes vai até a porta, abre para ver se tem alguém do outro lado. É engraçado, ele é uma criança divertida e educada.
Hoje me fez perceber, na verdade recordar, que são das pessoas diferentes que gosto mais.
- Professora, no primeiro dia de aula a gente te achava tão estranha.
- Como assim? Estranha?
- É... Estranha, sei lá.
- Mas estranha de que jeito?
- Estranha, diferente, não sei explicar.
- Ahh... então eu sou um ET.
- Nããão... não é isso.
- Então, o que é estranho em mim?
- Não sei, o jeito de andar, de falar, as coisas que você diz.
- Como é o meu jeito de andar?
- É diferente.
- Como? Eu ando devagar, torto, ...? Quero entender porque sou diferente.
- Não sei explicar muito bem, mas a gente não te conhecia. Eu ando torto sabia, meu pé é torto, mas ninguém nota, só eu que percebo quando vou andar e ele fica torto.
- Poxa, então eu devo ter o pé torto também e só tu que nota que eu ando diferente.
- Nããão... professora. Sabe, tu chegou lá na sala e falou umas coisas diferentes. Disse que estávamos errados falando que ninguém sabia desenhar, dai disse que cada um tem o seu jeito de desenhar e fazer arte. Depois desenhou um boneco de cabeça quadrada e disse que não é preciso fazer tudo da forma real, que dá de fazer com quadrado, com circulo, e outras coisas. Dai tu perguntou o que era arte para a gente e uma menina disse que era só rabisco, tu disse para ela que até o final do ano ia provar que arte não era só rabisco. E dai tu provou. Eu chego aqui na tua sala e te acho diferente, entro pela porta e vejo essas coisas e sei que tu é criativa. Uma professora de artes tem que ser criativa. Tu cria coisas com tudo. É tão legal, fazer arte não é igual matemática que somas os números. A outra professora manda a gente fazer isso direto. Minha irmã é advogada, ela sempre esta com a mesa cheia de papéis, mas quando ela tem uma folha em branco ela sempre começa a rabiscar. É tão bom pegar uma folha e fazer algo nela, pintar, riscar e fazer uns rabiscos.
Tocou no fundo da alma.
- Sabe, eu também acho. Uma folha em branco é um convite.
Sabe aquela sequência de dias em que uma coisa desanima a outra e assim vai se formando um acumulo de desanimo e incertezas? O menino Daniel em seu momento de devaneios e ansiedade, desabafou seu sentir e tocou esta jovem professora no fundo da alma. Lá onde estão os sentimentos nobres.
Acho que os seres diferentes/estranhos se entendem.
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